A Caixa de Pandora

A Caixa de Pandora

Annie dos Ventos

Pandora desperta uma grande curiosidade a qualquer um que a observe,dona de uma beleza excêntrica,alguns a considerariam até feia, mas quem conseguisse enxergar além,seria agraciado com algo quase irreal,uma aura sutil e bela da qual não conseguiriam parar de ficar admirando-a.
Mas Pandora não tinha consciência no que despertava a sua volta, gostava de ficar contemplando as pessoas, a natureza,a vida. Os olhos das pessoas eram muito interessantes,alguns traziam consigo um brilho sagaz quase cruel,outros uma inocência de quem pensava poder salvar o mundo, mas que não era nem capaz de salvar a si mesmo, uns eram alegres,outros tristes.Havia sempre extremos opostos,o que Pandora não conseguia entender era o por que daquilo tudo.Havia guerra e paz,harmonia e intriga tudo num mesmo lugar.Mas alegrava que mesmo depois de uma noite fria e escura,com o vento parecendo sussurrar lamentos que viravam uma cantoria assustadora,o dia seguinte muitas vezes nascia com o Sol aquecendo a todos e o Vento sussurrando uma melodia doce.
pandoraGostava de ouvir as historias que as pessoas vinham lhe contar.Sorria ao perceber que uma mesma situação ganhava tons dramáticos,engraçados,sombrios,sinistros,alegres nos lábios de diferentes pessoas.
Estava observando a rua como de costume,sentada no banco em frente a sua casa quando uma certa algazarra lhe chamou a sua atenção. Um jovem, a quem nunca havia visto antes,segurava uma misteriosa caixa.Os olhos dele se encontraram com o dela, e ela soube naquele instante que sua vida mudaria para sempre.


Como se fosse atraída por uma força inexplicável, Pandora se dirigiu em direção ao tumulto.Policiais falavam com o jovem, apontando para a caixa.
“O que está acontecendo,senhores?”- perguntou Pandora,aproximando-se do grupo.Ao falar com os guardas, sentiu incrível mal-estar.
A expressão dos policias ficaram estranhas, e eles começaram a falar numa língua desconhecida,arrastada.Dirigiam-se ao jovem,ignorando Pandora.
“-Você são estrangeiros?”- sem entender nada,Pandora sentia extrema necessidade de continuar fazendo perguntas.
“-A caixa é dela, vocês não podem fazer mais nada.”- o jovem dizendo isso, entregou a caixa para Pandora

A caixa era feita de um tecido bordado com inscrições de uma lingua que Pandora não conseguiu definir.
“Não abra esta caixa,de jeito nenhum”- a voz do jovem se fez ouvir.
Ao erguer os olhos para falar com o jovem, não encontrou ninguém, e se viu sentada no banco em frente a sua casa,como se nem tivesse saído dali
“Será que andei sonhando…? Mas a caixa continua aqui,em meu colo!” Pandora passou alguns dias tentando encontrar alguém que lhe dissesse quem eram aquelas pessoas, mas ninguém tinha visto nenhum jovem e nem policiais estrangeiros.Se fosse assim toda a cidade já estaria comentando.
Sem saber o que pensar, a caixa era a única prova de que aquelas pessoas existiam e que aquela manhã não tinha sido um sonho.
Muitas pessoas que costumavam visitá-la se portavam de forma estranha ao examinarem a caixa.Alguns começavam a chorar, outros pareciam enlouquecer, e alguns pareciam ter encontrado a felicidade.Mas logo que se afastavam,voltavam a ser o que eram antes.Algumas tentaram abrir a caixa escondido de Pandora, mas sem sucesso.

Foi então que começaram os sonhos.
Sempre visualizava um ambiente de um tom azul escuro e ausente de luz.E muitos seres assustadores e medonhos estavam lá.Mas quando chegava perto eles assumiam uma forma bela e sedutora.E então Pandora sentia um frio tão intenso que chegava a sentir sua pele queimar… e acordava desesperada.
Os sonhos seguiam todos os dias ,iguais com pequenas variações, foi quando notou que aqueles seres não podiam chegar até ela.Ela que tinha que ir ao encontro deles.
Então o sonho mudou completamente, Já não estava escuro,havia uma suave luz acolhedora. E foi então que ela o viu. O jovem.
“-Algo nesse rapaz é para mim irresistível” -Pandora se pegou admirando-o e percebeu a sua beleza, estranhou não ter notado antes, mas o que chamou a atenção foi a tristeza transmitida pelo olhar dele, e a felicidade sugerida pelo sorriso.

Ele segurava a caixa, agora de uma forma diferente, com todo o cuidado,como se fosse se esvair em fumaça ao menor passo em falso.
“-Você precisa abri-la.” disse o misterioso jovem num sussurro,como se estivesse sem forças até para falar.
“-Mas você mesmo disse para não abri-la, por que mudou de idéia?” – surpresa, Pandora percebeu que estava chorando, e nem sabia por que.
Ele suspirou e se aproximou dela, estendendo a caixa para ela e dando a entender que era hora de abrir;
“-Eu não queria ,e ainda não quero que você abra essa caixa, mas é preciso.Você é um ser divino Pandora,e saberá como lidar com o que está por vir.Embora esteja lutando contra isso, é impossível fugir ao seu destino,cedo ou tarde ele te encontra. Tenha fé e coragem.”

Logo que ouviu ele terminar de falar, como que hipnotizada, tocou na mão dele, e juntos abriram a caixa.
O semblante do jovem se transformou,a leveza,a felicidade que parecia estar nele já não existiam mais, o que viu ali foi um olhar muito mais intenso de tristeza e um sorriso sombrio.
A caixa foi tomada de intensa luz que ofuscou por instantes a visão de Pandora, meia zonza reconheceu horrorizada os seres do seu sonho, mas agora sabia quem eram eles.Todas as desgraças estavam soltas no mundo.Elas já existiam no mundo,mas Pandora sabia que controlavam tudo da dimensão deles, tendo seu poder reduzido em muito.Mas,agora libertados desse jeito, Pandora tremia sem saber o que esperar, tampou em um gesto desesperado a caixa,temendo libertar mais desgraças ainda.
Acordou com o coração aos saltos, o silêncio era gritante, a costumeira cantoria dos passarinhos não se fazia ouvir e a manhã estava cinzenta e opaca.
Ao sair, notou o frio e o clima denso e pesado, as pessoas estavam incrivelmente feias, e carrancudas,e os que costumavam conversar com ela pareciam estar com repulsa dela.
Assustada , parou em frente ao espelho, não reconheceu seu rosto, seus olhos estavam opacos,e a beleza dela a tinha abandonado. (a beleza de alguém pode ser abandonada?)
Ela se trancou dentro de casa,assustada demais com todo o horror que havia presenciado,o cinismo,o ódio,a inveja transpirando por todos os poros das pessoas,e durante dias ela ouviu algumas pancadas ameaçadoras na porta,gritos e gemidos horrendos e quase havia se esquecido por que tudo havia ficado daquela forma.Por culpa dela -pensou Pandora, já a beira do desespero.
Foi quando viu a caixa em cima da mesa da sala ,ela tinha certeza que havia deixado ela escondida bem fundo lá no armário.Respirando fundo, pegou devagarzinho a caixa e percebeu que muitas inscrições bordadas ali haviam sumido. A inscrição bordada que restava havia se transformado num símbolo muito bonito e muito familiar para Pandora, mas não sabia de onde conhecia aquele símbolo.

Pandora estava tão entretida ao admirar as inscrições da caixa que quase a abriu,ao perceber o que quase iria fazer,entrou em pânico,ao imaginar que o mundo poderia ficar do que já estava.
“-Será mesmo que o mundo pode ficar pior do que já está?” – uma familiar voz se fez ouvir dentro dela.
Mas Pandora estava com tanto medo que ignorou a mensagem implícita que a voz tinha lhe dito e cobriu a caixa com um pano e foi se esconder encolhida embaixo das cobertas.Suava frio, suas mãos estavam geladas e tremia como se estivesse com febre.
As trevas dominaram o ambiente e se sentindo totalmente só,pensou consigo mesma que seria melhor mergulhar na escuridão ,pois tinha fracassado.Ela não era um ser divino coisa nenhuma, e tudo o que podia fazer era ficar ali se deixando que o medo a dominasse.
Exausta ela caiu no sono,e o ambiente dos seus sonhos não era diferente da realidade.
A escuridão e o silêncio eram a sua única companhia,ela caminhava numa estrada que parecia nunca ter fim,tropeçando e caindo tantas vezes que tinha perdido a conta.
Foi então que o avistou.* O jovem *
O olhar que antes era intenso e expressivo cedeu lugar a uma expressão fria e distante.Pandora sentiu se tão triste ao vê-lo daquele jeito que começou a chorar foi então que percebeu que ele estava preso e acorrentado.
“-Se liberte,Pandora!” – a voz dele a fez tremer.
Ele só poderia estar louco,era ele quem estava preso,não ela
Subitamente o vento começou a soprar forte em direção a ela, e no segundo seguinte o jovem já não estava mais preso.
Era ela quem estava presa e acorrentada.
A caixa apareceu na sua frente,ela chutou desesperada o objeto para longe,mas a caixa voltava para o mesmo lugar ,flutuando,bem em frente ao seu rosto.
Acordou,com a caixa em cima de sua cama.
Ela gritou em pura agonia.e olhou ao seu redor e percebeu que tudo havia se transformado em trevas e escuridão.
Talvez já não tivesse outra opção a não ser se tornar parte da sombria realidade.
Vários dias se passaram e Pandora passava o tempo olhando fixamente para a caixa como se estivesse em transe…

O medo se instalou e tomou conta do seu ser.A sensação de fracasso era sufocante.E a “culpa” se abateu sobre ela.
O símbolo bordado na caixa ,resplandecia emitindo luzes douradas e parecia querer dissipar toda aquela atmosfera de frio e desolação.A luz se tornava cada vez mais intensa e Pandora começou a gritar,não conseguia mais sentir e ver a beleza de nada,tudo era frio e escuro para ela.Até aquela luz dourada e cálida se tornava algo terrível e ameaçador.
“-Vamos Pandora,lute.Se liberte!- a voz masculina e suave já tinha se tornado familiar para ela.Era a voz do jovem”.
“-Me ajude!Se liberte!” -a voz se tornou rouca e sussurrada.
Ele estava na sua frente ,e chorava.Umas luzes suaves e ao mesmo tempo intensas giravam em torno dele e se expandia preenchendo todo o ambiente.Parecia estar cansado,mas seus olhos estavam tranquilos mas também havia uma tristeza diferente ali.Uma solitária tristeza que se misturou com toda a tristeza do mundo que no instante seguinte se dissipou do olhar dele para dar lugar a uma determinação e ternura que a esqueceram do frio e de toda a densa neblina que a envolvia.
E então começou a se lembrar de um lugar,o seu LAR,onde tudo se sintonizava e ela era feliz. Ela se lembrou de um certo jovem de olhos intensos,e o por que estava nesta dimensão.
E recordou que todos aqueles últimos dias escuros,o clima de guerra,destruição já existiam ,muito antes dela os libertar.Apenas estavam presos e mascarados no interior de cada um.Correu para olhar para fora e viu que o céu estava cinzento,mas também conseguiu ver a chuva e o arco-íris por trás daquelas nuvens cinzentas.Muito do que tinha presenciado foi aumentado e criado por ela.
Podia finalmente perceber a sombra de todos os aspectos negativos que rondava toda a atmosfera.E sua terrível carência privando a da Luz e Percepção.
Agora era hora de preencher a atmosfera e alimentar as Sombras de Luz e Compaixão para que as trevas se dissipem.

A Intensa aura que envolvia o rapaz se apagava aos poucos,mas Pandora lutava contra o medo das trevas e não percebia o que estava acontecendo com o jovem.
Mesmo compreendendo tudo o medo ainda não a abandonou.O medo de que tudo fique pior do que já está.Do fracasso.Da solidão.Do incerto.
“-Será mesmo que tudo poderá ficar pior do que já está?”
“-Mesmo que fique pior, alguma ação pelo menos foi feita” -sussurrou Pandora
E quase prestes a desmaiar,com o coração batendo fortemente que chegava a doer,as mãos trêmulas,abriu a caixa.
O que se seguiu é algo indescritível,A Esperança,o Amor,a Paz,a Felicidade e todos os frutos da Luz preencheram o quarto de Pandora,deixando no ambiente o suave aroma das flores e da alegria de viver, e uma envolvente melodia da harmonia,do equilíbrio e da paz.
Quando as últimas centelhas de Luz saíram pela janela afora, finalmente os olhos dos dois se encontraram.
O jovem sorriu-lhe, e este sorriso aqueceu totalmente o coração de Pandora. Foi a última coisa que fez antes de se desfazer no Ar.
Toda a energia do rapaz foi transmitida a Pandora para que pudesse vencer todas as trevas que residia dentro de si e ao seu redor.
O símbolo da caixa ainda emitia intensa luz dourada.Pandora a tocou e um grande portal foi aberto.

Na casa de Pandora foi encontrado um pergaminho onde contava a história da Luz e da Escuridão,de como venceram as Trevas e sempre que se encontram, o Amor é finalmente vivido e compreendido.

 

 

 

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